Catadoras de recicláveis: mulheres transformam cooperativas e lideram avanços sociais e ambientais no Brasil

Com maioria nos postos de trabalho e cargos de liderança, mulheres catadoras impulsionam sustentabilidade, inclusão e justiça social em cooperativas de reciclagem em todo o país.

Por Vital News*-
5 Min

Catadoras de recicláveis: mulheres transformam cooperativas e lideram avanços sociais e ambientais no Brasil
Mulheres assumem protagonismo em cooperativas de reciclagem no Brasil. - Reprodução

As mulheres têm ocupado um papel central nas cooperativas de reciclagem no Brasil, assumindo posições de liderança e protagonismo em diversas frentes. Segundo o Atlas Brasileiro da Reciclagem — iniciativa da Ancat (Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis) —, elas representam 56% dos mais de 75 mil catadores registrados no país. Dentre essas trabalhadoras, 61% estão à frente de cargos de direção e gestão.

“Essas mulheres não apenas realizam a coleta e triagem dos resíduos, como também gerenciam as operações, negociam contratos e impulsionam o crescimento das cooperativas”, afirma Mônica Silva, diretora da Ancat.

Segundo Mônica, elas têm sido protagonistas também em movimentos sociais ligados à reciclagem, liderando iniciativas de capacitação, educação ambiental e luta por melhores condições de trabalho. Para muitas, essa ocupação representa uma oportunidade de renda e autonomia financeira.

“O trabalho nas cooperativas promove inclusão, dignidade e respeito. Não se trata apenas de um emprego, mas de uma rede de apoio e de oportunidades. Para as catadoras que são chefes de família, essa atividade garante o sustento do lar e permite conciliar as responsabilidades domésticas com o trabalho”, completa Mônica.

Trabalho que preserva o meio ambiente

As cooperativas de catadores exercem um papel essencial na proteção ambiental. Por meio da coleta, triagem e encaminhamento de materiais recicláveis à indústria, essas organizações reduzem significativamente a quantidade de resíduos enviados a lixões e aterros sanitários.

A atuação das cooperativas contribui para a diminuição da poluição do solo, da água e do ar, além de preservar recursos naturais, uma vez que a reciclagem consome menos energia e matéria-prima do que a produção de novos materiais.

Outro destaque é o papel educador dessas cooperativas, que sensibilizam a sociedade sobre a importância da separação correta dos resíduos e da redução do consumo. Um exemplo é o projeto “A Voz da Mulher Catadora”, promovido pela Apoena Socioambiental com apoio do Instituto Gaia, em Porto Alegre. A ação capacitou 30 lideranças femininas em cooperativas de Canoas (RS), impactadas pelas inundações. As participantes receberam formação em finanças, mudanças climáticas e redução de resíduos na comunidade.

Lutas por políticas públicas e reconhecimento

O MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis) atua na articulação de políticas públicas e na defesa dos direitos da categoria. No Distrito Federal, por exemplo, o movimento participa dos contratos de prestação de serviços com o governo, buscando garantir pagamento justo.

“A pauta das políticas públicas envolve desde o acesso a creches e cuidados com os filhos, até a qualificação dos jovens para o mercado de trabalho”, explica Aline Sousa, diretora-presidente da CENTCOOP/DF, representante do MNCR e da Secretaria da Mulher e Juventude da Unicatadores. Ela também é delegada na Secretaria Operativa da Red Lacre.

Aline destaca ainda a preocupação com a saúde das mulheres: “Estamos firmando parcerias para realizar exames preventivos nos próprios locais de trabalho, pois muitas não conseguem tempo para cuidar da saúde. O foco é a prevenção de doenças como o HPV.”

Ela reforça a urgência do reconhecimento profissional: “É preciso valorizar e pagar adequadamente pelos serviços prestados. O fim da precarização e da insalubridade é fundamental.”

A Lei nº 12.305, de 2010 — que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) — reconhece a importância dos catadores como agentes essenciais na gestão de resíduos. A norma estabelece metas de eliminação de lixões e prevê a inclusão social e emancipação econômica desses trabalhadores.

De acordo com o Panorama 2024 da Abrema (Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente), o setor empregou mais de 386 mil pessoas em 2023, um crescimento de 2,6% em relação ao ano anterior. A maior concentração de empregos ocorreu nas regiões Sudeste (42,6%) e Nordeste (29,7%).

Mulheres negras e mães: força invisibilizada

Em 2021, o livro “Quarentena da Resistência” foi lançado como um registro da realidade vivida por catadoras durante a pandemia. A obra, fruto de uma parceria entre a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e o MPT (Ministério Público do Trabalho), reúne histórias de mulheres negras, mães, com mais de 40 anos, que enfrentam a exclusão e a vulnerabilidade social.

“Elas compartilham suas dores e afetos dentro das cooperativas, criando laços de solidariedade e fortalecendo a luta coletiva. É um verdadeiro aquilombamento”, descreve a procuradora do Trabalho Elisiane dos Santos, uma das idealizadoras do projeto.

Elisiane reforça que o trabalho dessas mulheres é essencial para a vida no planeta. “Elas nos ensinam que nem tudo é lixo, nem tudo é descartável. Cada resíduo carrega o reflexo de uma sociedade marcada pelo consumo desenfreado. É urgente reeducar nossa relação com o meio ambiente e com quem vive da reciclagem”, finaliza.


FONTE: Com Ecoa UOL*
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