🌐 Quando a política vira combustível para o preconceito
Em tempos de eleição, o debate deveria ser sobre propostas, futuro e soluções.
Mas, na prática, o que cresce nas redes sociais é outra coisa: intolerância, ataques e discursos de ódio.
Levantamento divulgado pelo G1, com base em dados da ONG SaferNet, mostra que, em anos eleitorais, os ataques contra nordestinos disparam. Em 2022, por exemplo, houve um aumento superior a 800% nas postagens ofensivas em comparação ao ano anterior.
Em 2018, o cenário já havia sido preocupante, com crescimento acima de 500%.
A conclusão é clara: quando a disputa política esquenta, o preconceito ganha espaço.
O estudo, desenvolvido por pesquisadores da UFSCar e da UFCG, analisou cerca de 282 milhões de publicações entre julho e dezembro de 2022.
O período coincidiu com o segundo turno das eleições presidenciais, quando as menções ao Nordeste triplicaram nas redes.
Mas não se tratava de debates saudáveis.
Em muitos casos, eram mensagens carregadas de estigmas, estereótipos e desinformação — transformando regiões inteiras em alvo.
Para a cientista política e professora da Ufal, Luciana Santana, esse fenômeno cresce em momentos de radicalização:
“Grupos mais extremos usam o ambiente digital para atacar e ampliar o alcance dessas mensagens por meio dos algoritmos.”
Segundo ela, não é algo espontâneo. É estratégia.
Já o professor Ranulfo Paranhos explica que esse discurso se espalha principalmente dentro de bolhas:
“Os eleitores reforçam entre si narrativas que já acreditam, sem buscar diálogo.”
Ou seja: o preconceito circula, se fortalece e vira “verdade” em determinados grupos.
Mesmo que candidatos evitem ofensas diretas, o discurso de ódio influencia campanhas de forma indireta.
Segundo Luciana Santana, rótulos ideológicos e ataques simbólicos fazem parte de uma retórica populista:
“São narrativas que mobilizam emoções, medo e ressentimento.”
Na prática, isso fragiliza o debate público e empobrece a democracia.
Com a mudança no entendimento do STF sobre o Marco Civil da Internet, o Brasil — e Alagoas — entram em uma nova fase de responsabilização das plataformas.
Para os especialistas, há mais instrumentos legais para combater o problema, mas os efeitos sociais ainda são profundos.
Ranulfo destaca:
“A Justiça Eleitoral tem mostrado preparo, mas os crimes digitais são cada vez mais sofisticados.”
O desafio, agora, é acompanhar a velocidade da internet.
O discurso de ódio não termina no celular.
Ele influencia comportamentos, relações sociais e até decisões políticas.
Quando uma região inteira é atacada, não é só ofensa — é tentativa de deslegitimação.
É dizer, indiretamente, que milhões de pessoas “não importam”.
E isso é grave.
O Nordeste não é problema.
É potência, cultura, história, trabalho e resistência.
Reduzir uma região a estereótipos é uma forma moderna de exclusão.
Combater o ódio digital exige:
✔️ educação midiática,
✔️ fiscalização,
✔️ políticas públicas,
✔️ responsabilidade das plataformas,
✔️ e participação ativa da sociedade.
Porque democracia sem respeito vira apenas barulho.
Como resume Luciana Santana:
“É preciso enfrentar o preconceito com informação, educação e valorização da identidade.”
E é exatamente isso que precisa ser feito, especialmente com a aproximação de 2026.
🔎 Fonte: G1, SaferNet, UFSCar, UFCG, Ufal