18/03/2023 às 12h19min - Atualizada em 18/03/2023 às 12h19min

Capitalismo nasceu no Brasil nos braços dos negros e não consegue romper com a escravidão

O capitalismo patropi é filho direto do tráfico negreiro e da escravidão, ou seja, do genocídio que vitimou milhares de negros

Redação
Euler de França Belém
Trabalhadores que estavam sendo escravizados em Bento Gonçalves | Foto: Divulgação
Economistas, inclusive de linhagem marxista, admitem a convivência de modos de produção diferentes numa mesma sociedade. Mas ressalvam que um dos modos de produção será dominante e, portanto, subordinará os demais.

O capitalismo, desde que se tornou o modo de produção hegemônico, permeia todas as demais relações na sociedade. O homem típico da sociedade moderna é o homem capitalista — seja pobre, rico ou da classe média.

O capitalismo é altamente absorvente, inclusive das rebeldias político-comportamentais. Os hippies pretendiam, de alguma maneira, criar uma sociedade alternativa, com escasso consumo, portanto contra o modo de produção capitalista. Aos poucos, a maneira mais despojada de se vestir — roupas largas, fora do cânone oficial — foi absorvida pelo mercado, com estilistas hábeis sendo a face visível, escondendo, por assim dizer, a força e a perspicácia da indústria.



Ciclistas rompem, em parte, a dominância dos automóveis, portanto adotam um comportamento alternativo e saudável. Porém, alternativo em relação a quê? As bicicletas, às vezes caríssimas, são produzidas pela indústria e, não raro, com as mesmas matérias-primas usadas para fabricar automóveis. Para se tornar um ciclista modelo, é “preciso” ter roupas, calçados, luvas e capacetes especiais. Noutras palavras, há um modelito que, a rigor, não é nada alternativo e é definido pelo mercado.

O fato é que o capitalismo não combate mais a “rebeldia” — o “radicalismo” comportamental —, mas apressa-se a absorvê-la. Umberto Eco talvez dissesse assim: o rebelde (o apocalíptico) nasce de manhã e, à tarde, já está “integrado” (ou dominado). Observe-se que até Che Guevara, o temível guerrilheiro comunista, aparece nas estampas das camisetas usadas por pessoas que, a rigor, mal sabem sobre sua história. O líder comunista se tornou, digamos, um ícone do capitalismo. Assim como os britânicos Beatles e a mexicana Frida Kahlo. A rebeldia está inteiramente “domesticada” e se tornou prêt-à-porter? Não, é claro. Mas é fato que o mercado soube absorvê-la, reduzindo sua capacidade contestatária. Pode-se falar em rebeldes, sobretudo identitários (as contestações políticas coletivas perderam energia), ma non troppo.

Escravidão “produziu” o capitalismo

A força do capitalismo advém, pois, de que, ao mesmo tempo que impõe seus valores (sua ética), absorve a dos outros e, com o tempo, torna-os seus (Étienne de La Boétie falaria em “servidão voluntária”?).
Com as grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs, a internet se tornou a meca do mercado moderno — um hipermercado gigante e global no qual se vende tudo. Quando se fala tudo está se incluindo os indivíduos. Quando participa de uma rede social, dialogando com amigos e desconhecidos-quase amigos — expondo suas características e idiossincrasias —, ou procura produtos nos múltiplos sites, o indivíduo não está apenas “comprando”. Ele está se vendendo para o mercado, está se tornando mercadoria — como um relógio, um sapato, um celular ou um notebook.

A internet acentuou o fato de que homens e mulheres — adultos, adolescentes e crianças — são os produtos mais vendáveis do “novo” capitalismo. Pode-se falar que o capitalismo inventou uma escravidão “light”; portanto, ligeiramente invisível. Costumamos dizer “meu Twitter” e “meu Facebook”. É um engano. Nós somos do Twitter, do Facebook, do Google, do YouTube. Nós somos “seguidores”. Mas totalmente? Não. Há um quê de “sujeito” entre os que se tornaram “objetos” (todos nós), ou melhor, “mercadorias”. Nunca se perde a autonomia inteiramente.



Se há uma servidão voluntária entre os diversos consumidores que, a rigor, são “consumidos”, há uma outra questão — e grave. O capitalismo, na sua convivência com modos de produção diferentes, permite, por certa flacidez moral-ética, a permanência de modos de produção retardatários e, no geral, brutais.

Como “sistema”, a escravidão foi abolida no Brasil há 135 anos. É tão recente que, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nasceu, em 1931, fora abolida havia apenas 43 anos. Título da tese de doutorado de FHC: “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional — O Negro na Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul”.

*Com informações do Jornal Opção

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