A safra 2025/2026 da cana-de-açúcar em Alagoas teve início em um cenário considerado um dos mais adversos já enfrentados pelo setor no Estado. A combinação entre estiagem prolongada, redução da produtividade agrícola e forte recuo nos preços pagos ao produtor vem provocando um efeito em cadeia que afeta desde o campo até a indústria, com reflexos diretos na economia regional.
Levantamentos do setor mostram que, na comparação com o mesmo período da safra anterior, os fornecedores de cana acumulam uma queda média superior a 15% na produção. O volume colhido até meados de janeiro somou pouco mais de 6,3 milhões de toneladas, número bem abaixo do registrado no ciclo passado. Ao mesmo tempo, o valor da tonelada padrão sofreu retração significativa, reduzindo de forma expressiva o faturamento no campo.
O impacto financeiro é severo. Estimativas apontam que os produtores deixaram de faturar cerca de R$ 338 milhões nesta safra. Enquanto no ciclo 2024/2025 o faturamento bruto ultrapassou R$ 1,2 bilhão, na atual temporada a projeção gira em torno de R$ 865 milhões. Para muitos fornecedores, isso representa perdas superiores a 50% de uma safra para outra.
De acordo com a Associação dos Plantadores de Cana do Estado de Alagoas (Asplana), o setor foi surpreendido logo no início da moagem por uma queda abrupta nos preços, somada a um ATR de campo abaixo do esperado. O resultado foi um cenário em que a conta não fechou nem para os produtores, nem para as usinas. A dificuldade de caixa já se reflete em atrasos e parcelamentos de pagamentos, principalmente em unidades industriais da região Norte do Estado.
Além da pressão econômica, o clima teve papel determinante na crise. A estiagem registrada entre o segundo semestre de 2024 e o início de 2025 comprometeu áreas de rebrota e resultou em canaviais com desenvolvimento abaixo do ideal. Em algumas regiões do Sul de Alagoas, a redução de produção chega a 30%. No Norte, as perdas variam entre 10% e 20%, afetando diretamente a geração de renda e empregos no meio rural.
Cooperativas também sentiram o impacto. Na avaliação de dirigentes do setor, houve casos em que o faturamento bruto caiu entre 30% e 40%. O problema foi agravado pelo cenário internacional do açúcar, marcado por excesso de oferta global, o que pressionou os preços no mercado externo e reduziu ainda mais o valor do ATR pago aos fornecedores alagoanos.
Apesar do quadro crítico, o setor ainda deposita expectativas em uma reação gradual do mercado de etanol, impulsionada pela redução dos estoques. A esperança é que essa recuperação ajude a melhorar as condições na próxima safra. No entanto, o maior desafio no curto prazo é garantir que os produtores consigam manter os tratos culturais básicos. Sem investimento em adubação e manejo, o risco de uma nova quebra de safra é real.
Mesmo em meio às dificuldades, a cana-de-açúcar segue como um dos principais motores da economia de Alagoas, responsável por milhares de empregos diretos e indiretos e pela movimentação econômica de dezenas de municípios. O momento, porém, exige atenção, planejamento e medidas que garantam a sobrevivência da atividade, sob pena de os efeitos da crise se prolongarem por mais de um ciclo produtivo.