A venda da operação do TikTok nos Estados Unidos para um consórcio liderado pela Oracle deve ser oficialmente consolidada nesta quinta-feira (22). O acordo envolve a empresa chinesa ByteDance, controladora da plataforma, e ocorre sob forte pressão do governo norte-americano, que alega riscos à segurança nacional e ao uso de dados de cidadãos dos EUA.
A transação, estimada em US$ 14 bilhões, representa um dos maiores negócios envolvendo empresas de tecnologia nos últimos anos. Atualmente, o TikTok é a quarta maior rede social dos Estados Unidos, com cerca de 170 milhões de usuários ativos.
🇺🇸🇨🇳 Pressão política e disputa geopolítica
A operação remete ao primeiro mandato de Donald Trump, quando o TikTok já havia sido alvo de tentativas de proibição. O tema voltou a ganhar força durante sua segunda campanha à Casa Branca, com o argumento de que o controle chinês da plataforma poderia representar ameaça à soberania dos dados norte-americanos.
Na nova estrutura, o controle decisório e o gerenciamento dos dados deixam de estar sob domínio chinês. A ByteDance permanecerá com 20% de participação, enquanto o restante ficará com empresas alinhadas ao governo dos EUA, como o fundo MGX, ligado à família real dos Emirados Árabes Unidos, e a Oracle, que será responsável pelo armazenamento e gestão dos dados.
📊 Quem está por trás do negócio
O nome mais destacado da Oracle na negociação é o do empresário Larry Ellison, classificado por analistas como parte do grupo dos chamados “brolygarchs” — grandes empresários alinhados politicamente a governos. Trump também se aproximou de outros nomes do setor tecnológico, como Mark Zuckerberg e Elon Musk.
Apesar da pressão, a ByteDance sempre afirmou operar de forma independente do governo chinês. Atualmente, 60% do capital da empresa pertence a fundos internacionais como BlackRock, General Atlantic e Susquehanna. Outros 20% estão distribuídos entre funcionários, incluindo cerca de 7 mil empregados nos EUA, e os 20% restantes pertencem aos fundadores, entre eles Zhang Yiming.
🌏 China reage e fala em equilíbrio de interesses
Mesmo negando controle direto sobre a empresa, o governo chinês se posicionou sobre a negociação. Em dezembro, o porta-voz do Ministério do Comércio da China, He Yongqian, afirmou que espera uma solução que esteja em conformidade com as leis chinesas e que alcance um equilíbrio de interesses entre as partes.
🖥️ Servidores, aplicativo e incertezas
Especialistas alertam que a mudança pode ir além da troca de servidores. Há especulações de que o TikTok nos Estados Unidos possa se tornar um aplicativo diferente, com impactos no design, nas funcionalidades, no algoritmo e nas políticas de moderação.
A pesquisadora Andressa Michelotti, da UFMG e da Universidade de Utrecht, avalia que o processo pode levar até mesmo a uma espécie de “balcanização digital”, com plataformas separadas por países ou blocos regionais.
Segundo ela, a transição envolve questões complexas, como o deslocamento de dados, a moderação de conteúdo, a atuação de moderadores humanos e as regras sobre o que pode ou não circular na plataforma.
🇧🇷 E no Brasil, o que muda?
A ByteDance afirma que a venda da operação nos Estados Unidos não impacta outros países, incluindo o Brasil. Em nota, a empresa declarou que a nova joint venture é exclusiva para o mercado norte-americano.
Para o professor Rafael Evangelista, da Unicamp e conselheiro do CGI.br, o caso não deve ser replicado no Brasil, mas serve como alerta para o debate sobre regulação das plataformas digitais, soberania tecnológica e governança da internet.
Ele lembra que plataformas digitais exercem papel central no debate público e não podem funcionar apenas sob a lógica do mercado, citando inclusive as revelações de Edward Snowden, que expuseram cooperação entre grandes empresas de tecnologia e o Estado norte-americano.
🏗️ Expansão da infraestrutura no Brasil
No Brasil, a ByteDance segue ampliando sua presença. No último dia 15, tiveram início as obras do novo data center do TikTok em Caucaia (CE), que deve se tornar o maior da América Latina.
O empreendimento terá 200 megawatts de capacidade, investimento estimado em R$ 200 bilhões, e será abastecido por energia solar e eólica. A construção é liderada pela empresa OMNIA, do Grupo Pátria, que também conta com participação do fundo BlackRock.
📜 Regulação em debate
O setor aguarda a votação do Projeto de Lei da Concorrência Digital (PL 4675/2025), que pode ampliar o poder do Cade na mediação de mercados digitais. Em 2025, o Congresso já aprovou a Lei 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, voltada à proteção de dados e conteúdos envolvendo crianças e adolescentes.