Uma mulher de 25 anos tornou-se a primeira pessoa no mundo a reverter o diabetes tipo 1 após um transplante de células-tronco, e seu corpo passou a produzir insulina por conta própria. O procedimento foi realizado em Tianjin, na China, e menos de três meses após a cirurgia, ela comemorou: "Agora posso comer açúcar", relatou em entrevista à revista Nature.
O transplante utilizou células-tronco reprogramadas, extraídas do próprio corpo da paciente, e foi considerado um sucesso. O cirurgião James Shapiro, da Universidade de Alberta, no Canadá, classificou os resultados como impressionantes, destacando que a paciente, que antes precisava de doses substanciais de insulina, teve o diabetes revertido completamente.
O estudo, publicado na revista Cell, também se baseou em um procedimento semelhante realizado anteriormente em Xangai, no qual um homem de 59 anos deixou de tomar insulina após receber células-tronco reprogramadas retiradas do próprio corpo.
Técnica inovadora e aplicação
No diabetes tipo 1, o sistema imunológico ataca as células produtoras de insulina no pâncreas. O grupo de pesquisadores liderado por Deng Hongkui, da Universidade de Pequim, conseguiu extrair células de três pacientes com diabetes tipo 1 e reprogramá-las em células-tronco pluripotentes. Diferente da técnica original criada por Shinya Yamanaka, a equipe de Deng usou pequenas moléculas para induzir o processo, proporcionando maior controle sobre a reprogramação.
Em junho de 2023, as células reprogramadas foram injetadas nos músculos abdominais da paciente, em uma operação que durou menos de meia hora. Em apenas dois meses e meio, a mulher já estava produzindo insulina suficiente para viver sem necessidade de reforço, mantendo seus níveis de glicose dentro da faixa-alvo por mais de 98% do tempo.
Próximos passos e desafios
Os resultados são promissores, mas ainda precisam ser confirmados em um grupo maior de pacientes, conforme afirmou o endocrinologista Jay Skyler, da Universidade de Miami. Ele sugere que o acompanhamento da produção de insulina por até cinco anos será necessário antes que o procedimento possa ser considerado uma cura definitiva.
Deng Hongkui espera expandir os testes para mais 10 a 20 pacientes em breve, e o objetivo é desenvolver células que possam escapar da resposta autoimune, já que o diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. A paciente, que preferiu manter sua identidade em sigilo, celebrou o sucesso do tratamento e sua liberdade alimentar: "Gosto de comer de tudo, especialmente ensopado", revelou.
A paciente com diabetes tipo 1 passou a produzir insulina (em azul) três meses após o transplante de células-tronco. Foto: Lennart Nilsson, Boehringer Ingelheim International GmbH, TT/Science Photo Library